Por
uma avaliação de verdade: boicotar o ENADE!
Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia - Gestão 2005/2006.
A
Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia - ExNEPe, de acordo
com a resolução tomada na plenária final do
26º ENEPe em Belo Horizonte, que contou com a participação
de 890 estudantes de 20 estados brasileiros, está organizando
uma campanha nacional de boicote ao Exame Nacional de Desempenho
dos Estudantes - ENADE, que é parte constitutiva do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Superior
- SINAES.
Por
que boicotar o ENADE/SINAES?
1
- Quando os acordos com o FMI começaram (década de
80), o governo firmou junto a banqueiros internacionais o compromisso
de reduzir os gastos com o Ensino Superior, para recebimento dos
empréstimos. O Banco Mundial indicava que o Brasil deveria
"otimizar" esse setor, tornando-o fonte de renda e isso
incluía o FIM DA GRATUIDADE NO ENSINO SUPERIOR. Os esforços
no sentido de cumprir as exigências do Banco Mundial começaram
na década de 90, e os cortes de verbas que debilitaram profundamente
as IES públicas durante o governo FHC não foram mera
coincidência. Transcorridas as eleições, o governo
Lula/ Banco Mundial agora implementa uma "Reforma" Universitária
que, se exitosa, culminará a privatização do
saber público. Essa "Reforma" institucionaliza
uma pseudo-autonomia universitária, atribuindo ao Estado
o papel de mero REGULADOR, ausentando-o da responsabilidade de ser
PROVEDOR da educação superior pública. No pacotão
da "Reforma", há um carro-chefe chamado autonomia
financeira. As
verbas públicas com isso deixam de ser exclusividade das
universidades públicas e o capital nacional e internacional
passam a poder "investir", ou melhor, usar as universidades
públicas para fins de mercado. Universidade Pública
é um bem público, e se perde esse caráter,
deixa de ser do povo - PRIVATIZA-se.
2
- O SINAES, que é um sistema nacional de avaliação
da educação superior foi transformado em lei muito
antes da aprovação do anteprojeto da "reforma
da educação superior", que já está
nas mãos do presidente para votação, o que
nos leva à seguinte indagação: Que estratégia
estaria subjacente a um sistema nacional de avaliação
que se antecipa às próprias definições
para a Educação Superior que tal sistema pretende
avaliar?
3
- O SINAES nasceu de uma MEDIDA PROVISÓRIA e foi instituído
pela Lei Federal nº10.861 de 14 de abril de 2004. Sua regulamentação
e a constituição da Comissão Nacional de Avaliação
da Educação Superior (CONAES), se deu de forma centralizada
a arbitrária, contando apenas com a participação
de consultores oriundos de Universidades (pagos pelo governo e não
necessariamente comprometidos com a defesa da educação
pública). Portanto, desconsiderando a discussão da
questão pela base da comunidade universitária nacional,
particularmente pelos estudantes que são os maiores interessados.
Sendo assim, se deu por um processo ilegítimo e antidemocrático.
4
- O SINAES/ENADE, ao invés de apontar as fraquezas do ensino
superior visando a busca de soluções para os problemas
enfrentados pelas IES, avalia-o para premiar e punir. Uma avaliação
de verdade deve ser formativa e emancipadora e não maqueadora
da realidade, ocultando os problemas para que o governo não
tenha que arcar com a responsabilidade do total descaso a que foram
relegadas as IFES nas últimas décadas, atribuindo
a falta de qualidade apenas às intituições.
Como o MEC pretende avaliar o sucateamento que ele mesmo proporcionou
às IFES? E as bolsas que não temos? E os laboratórios?
E a assistência estudantil? O MEC nos avalia e quem avalia
o MEC?
5
- O SINAES/ENADE faz com que os estudantes sejam obrigados a comparecerem
no local de prova, pois estabelece que este passa a ser "componente
curricular obrigatório". Quando prestamos vestibular,
não constava no currículo que teríamos que
realizar o ENADE. Ele foi arbitrariamente instituído, desrespeitando
a autonomia das universidades de gestarem seus currículos.
Se não comparecermos no local de prova, ficaremos sem diploma?
DIPLOMA É UM DIREITO ADQUIRIDO por nota + freqüência.
Acrescentar um componente curricular a priori em um currículo
devidamente aprovado (inclusive pelo próprio MEC) é
ilegal.
6
- O SINAES/ENADE desconsidera a autonomia e os projetos acadêmicos
de cada universidade. Há um exame padrão para todas
elas, e assim sendo, o ENADE será determinante dos conteúdos
- tal qual o vestibular, que estipula o que deve e o que não
deve ser ensinado no Ensino Médio. E isso não é
especulação: O ENADE já está norteando
o que a faculdade ensina, pois os donos das particulares precisam
de um bom resultado para promoverem o marketing de suas instituições!
Considerando ele ser padronizado, também há a questão
do desrespeito às especificidades dos cursos de cada região.
Não há como contemplar e respeitar a diversidade de
regiões numa prova cujo componente específico das
Ciências Biológicas iguala-se para Rio Grande do Sul
e Rio Grande do Norte. A Pedagogia não tem DCN's (Diretrizes
Curriculares Nacionais) e, sendo assim, existem mais de 300 cursos
com enfoques diferentes espalhados por todo o Brasil. Como avaliá-los
com um único instrumento?
7
- O ENADE/SINAES avalia todos os cursos de Pedagogia com base em
um único instrumento que, por sua vez, irá se pautar
nas Diretrizes Curriculares Nacionais de cada curso. Que conteúdos
serão incluídos nas provas da Pedagogia, na atual
ausência de Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso?
Ou, dar-se-ia o caso de uma inversão, ou seja, de tais provas
acabarem por informar a formulação dessas diretrizes?
8
- O SINAES/ENADE gera a competição entre as instituições
de ensino e entre seus alunos. O MEC diz não promover o ranqueamento,
mas os dados que ele "ingenuamente" disponibiliza após
o ENADE tornam possível um ranqueamento imediato. Assim,
muitas IES passam a preparar os estudantes não para serem
bons profissionais, mas para se saírem bem no exame. Além
disso, visto que as verbas públicas, com a implementação
da "Reforma" Universitária, deixam de ser exclusividade
das Universidades Públicas, o ranking torna-se necessário
para a seleção e distribuição das verbas
entre as públicas e as particulares. É por isso que
o intrumento que avalia as públicas é exatamente o
mesmo que avalia as particulares.
Como
boicotar?
A
Coordenação da ExNEPe deliberou por organizar no próximo
ano em todas as regiões o BOICOTE INSTITUCIONAL ao ENADE/SINAES,
como uma forma mais avançada e coletiva de resistência
à esse modelo antidemocrático de avaliação.
O boicote institucional significa que lutaremos para que as coordenações
de curso não inscrevam os estudantes na prova. Essa é
a forma mais avançada de resistência porque não
diz respeito apenas aos estudantes, mas à toda a instituição.
Além disso, é uma forma mais efetiva, pois inviabiliza
a aplicação desta política de forma mais ampla
e contundente. Este ano, o boicote institucional está inviabilizado,
porque todas as coordenações já fizeram as
inscrições.
Sendo
assim, organizaremos este ano o ZERO NA PROVA. Significa que compareceremos
no dia da prova, assinaremos nosso nome e colaremos o adesivo do
boicote na prova, não preenchendo nenhuma das perguntas.
Nosso curso terá, dessa forma, a nota mínima no exame,
que é 1.
Porque
é importante zerarmos, que conseqüências poderemos
ter e como enfrentá-las?
Durante
os últimos anos, a ExNEPe organizou em conjunto com outras
executivas de curso o boicote ao Provão de FHC. Zerar a prova
é importante para demostrarmos nosso repúdio e que
não aceitamos ser obrigados a nos submeter a esse instrumento
punitivo e ranqueador. Além disso, essa é a forma
efetiva que temos de barrar a implementação da "reforma"
universitária; se aceitarmos que essas políticas sejam
implementadas, será o fim da Universidade Pública
e Gratuita Brasileira. Não fazendo a prova, estaremos impedindo
o MEC de aplicá-la. Quanto mais cursos aderirem, maior será
o resultado do boicote.
Segundo
a lei que o institui, o ENADE passa a ser "componente curricular
obrigatório". Por isso, é importante que todos
compareçam no dia da prova e ZEREM! A nota individual do
aluno não será publicizada e nem constará no
diploma. A que será publicizada é a nota geral do
curso. No diploma só constará a data de realização
da prova.
Pela
lei, a instituição que tirar nota abaixo de 3 no SINAES
(O ENADE tem peso de 20% na nota total) deverá assumir um
"Protocolo de Compromisso" com o MEC, se comprometendo
a realizar ações que visem a melhoria dos aspectos
apontados como falhos. É importante dizer que cabe à
instituição realizar ações, o Mec não
tem nenhuma contrapartida nisso. Quem é o provedor da educação
e o principal responsável pela sua falta de qualidade? É
importante que reafirmemos que acrescentar um "componente curricular
obrigatório" em um currículo em curso, aprovado
por todas as instâncias cabíveis (inclusive pelo Mec)
é ilegal. Isso significa que fazer o ENADE só será
de fato obrigatório depois que os currículos forem
reformulados. Enquanto os currículos não forem reformulados
e a Pedagogia não tiver Diretrizes Curriculares Nacionais
o ENADE é ilegal, além de ser inconstitucional, pois
fere a autonomia universitária ao OBRIGAR as instituições
a se submeterem. É com base em todos os argumentos políticos
e também jurídicos que repudiamos esse exame e o boicotaremos.
Pelo
zero no ENADE! Por uma avaliação de verdade!
Barrar
a implementação da "reforma" universitária
do governo Lula/Banco Mundial!
Em
defesa da educação pública e gratuita!
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