ENADE:
A Avaliação do Banco Mundial
Texto retirado
do Jornal "Os que Lutam" - C.A. Paulo Freire - Pedagogia/Unirio
Breve Introdução
O ENADE (Lei 10.861/04) é parte da
“Reforma” Universitária e foi instituído via Medida Provisória
por Luiz Inácio Lula no ano de 2004. Neste mesmo ano Luiz Inácio
aprovou outras quatro fatias desta “reforma”: o Pro-Uni (que se
transformou em Lei 11.096 em 2005), a Lei de Inovação
Tecnológica (Lei 10.973), o Decreto que institucionaliza as
Fundações Privadas nas Universidades Públicas (Decreto 5.205/04)
e as Parcerias Público-Privadas (Lei 11.079); um ano depois o
governo implementou a Educação à Distância (decreto 5.622/05) e
as Diretrizes Curriculares Nacionais para o nosso curso (contra
a qual tanto lutamos!). Mais tarde ainda veio o famigerado
REUNI...
Embora o objeto da presente nota seja discorrer somente sobre o
ENADE é importante demonstrar o ambiente sob o qual este foi
implementado. As medidas citadas acima dão conta de que existe
um processo de execução de uma contra-reforma na educação
superior, particularmente a partir de 2004, e de que o ENADE é
componente desta.
A “Reforma” Universitária
Esta “reforma” em curso no país é um projeto
elaborado por organizações internacionais (dentre as quais o
Banco Mundial se destaca) e visa orientar a trajetória do ensino
no Brasil. Em linhas gerais o objetivo consiste em
desresponsabilizar o Estado pelo ensino e passar esta tarefa à
organizações privadas, atrelando gradativamente a produção de
conhecimento às necessidades do mercado capitalista. A mesma
lógica do que já fizeram com êxito na saúde: os hospitais
públicos quebrados, sem condições alguma de atender o povo, e,
em contrapartida, uma célere proliferação de planos de saúde
privados.
Para não nos alongarmos neste item consideramos pertinente a
transcrição de trechos de documentos do órgão do imperialismo
ianque que norteia a referida “reforma”:
“as universidades públicas, gratuitas, assentadas na
indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão não servem
para a América Latina.”
(“BANCO
MUNDIAL, O BM e o Ensino Superior: Lições derivadas da
Experiência, 1994)
“o país gasta mais, em termos per capita, em pesquisa e
desenvolvimento (P&D) e com o ensino superior do que a maioria
das nações latino-americanas. Como explicar esse paradoxo? Em
primeiro lugar, o setor público domina a P&D: os vínculos entre
as universidades e o setor privado são relativamente
fracos.(...)”
(BANCO
MUNDIAL, Brazil: Equitable, Competitive and Sustainable -
Contributions for Debate, 2003)
Está claro, pois, que a “reforma” universitária em andamento
visa privatizar o ensino público. Entregar o ensino para as mãos
de grandes empresas privadas para, além de lucrarem, ajustarem o
ensino em geral às demandas do imperialismo. É neste contexto
que se explica a distribuição aleatória de diplomas
proporcionada pela Educação à Distância, a isenção de impostos e
benefícios fiscais dados pelo Pro-Uni às Instituições privadas,
a permissão do uso de recursos públicos pelo setor privado
conferida pela Lei de Inovação Tecnológica, a
institucionalização das Fundações Privadas que administram (e
roubam!) verbas das Universidades Públicas, o REUNI que promove
a precarização do ensino com ampliação do acesso sem recurso
correspondente e o ENADE que, como estas políticas, segue a
mesma lógica privatista.
O ENADE
O ENADE foi
instituído através do SINAES (Sistema Nacional de Avaliação do
Ensino Superior) e substitui o antigo “Provão” da gerência FHC.
Estudantes que estão no início e no fim do curso são submetidos
à prova e o MEC avalia a instituição através de conceitos que
variam de 1 a 5.
Dentro da perspectiva estabelecida pelo Banco Mundial o ENADE
cumpre papel importante sobre diversos aspectos. Além de regular
o conteúdo dos currículos o ENADE beneficia o setor privado e
ainda justifica cortes de verba nas Instituições Públicas.
Como funciona o esquema? A prova do ENADE é uma só para todo o
Brasil. Sim, estes senhores, pretensos pedagogos, não consideram
as diversidades culturais que o nosso Brasil, país de dimensões
continentais, comporta. Além disso, com esta prova elaborada
inteiramente pelo governo, nossos “avaliadores” impõem um
pensamento único dentro dos cursos – a saber, o deles, é claro –
impedindo e sufocando o conflito saudável de opiniões dentro da
Universidade. Isto porque, as Instituições para não se verem com
“nota baixa” (e não só isso; para não serem punidas) vão
adequando seus currículos ao conteúdo exigido na prova. Além de
violar o princípio de autonomia da Universidade, o governo vai
impondo suas concepções – ou melhor, as do mercado.
O caráter autoritário do Exame pode ser ilustrado com a
obrigatoriedade que o estudante tem de comparecer ao local da
prova – sob pena de não receber seu diploma! – e o direito do
Ministro destituir o diretor da faculdade que se recusar a
aplicar a prova(!!). Um exame que serve aos nossos interesses
necessariamente não precisa utilizar tais métodos...
Sob a batuta das grandes empresas o SINAES ainda divulga o
ranking das Instituições, estimulando uma concorrência entre as
faculdades privadas – pois a melhor posição eleva o preço da
mercadoria educação – e entre as públicas – para decidir quem
vai receber mais dinheiro (ou para disputar quem não vai ter sua
verba cortada).
O segredo para subir no ranking é fácil: avançar com a
privatização. Entregando o ensino para as Fundações Privadas e
grandes corporações pode-se ter certeza que os currículos vão
servir mais ao interesses capitalistas e, por conseguinte, virá
a ascensão no ranking. Para a máfia das Instituições de Ensino
privadas esta foi a melhor solução para permitir a competição
com as IES Públicas. Até cursinho preparatório é feito...
Mas não acaba por aí. Para difundir e estimular a concorrência e
o individualismo o ENADE ainda premia os estudantes com melhor
desempenho com bolsas e outras oferendas. Em vez de garantir o
direito do estudante à assistência estudantil para mantê-lo de
forma digna na faculdade, o governo promete algumas esmolas e,
assim, joga estudante contra estudante numa disputa entre
vítimas e não contra o inimigo comum – que é o próprio governo o
qual implementa estas políticas.
Portanto, o ENADE não se configura como uma avaliação que serve
aos interesses dos estudantes comprometidos com a Universidade
Pública e Gratuita. O objetivo do ENADE, como parte da
“reforma”, é abrir alas para a privatização e o corte de verbas
públicas; é isentar o Estado sobre a qualidade do ensino e
empurrar esta responsabilidade para os próprios estudantes, que
não formulam as políticas educacionais e não têm qualquer
direito de intervenção sobre estas.
Desde o “provão” do FHC até o ENADE de Lula os estudantes
boicotam a prova em defesa do ensino. O estudante selecionado é
obrigado a comparecer e entregar a prova, somente. Isto
significa que você pode entregar a prova em branco sem qualquer
implicação para sua vida acadêmica – a nota é individual e não é
divulgada. O Sindicato Nacional dos professores é também a favor
do boicote: “A convocação do boicote por uma série de Executivas
estudantis tem de ser saudada como um gesto em defesa da
universidade pública de alta qualidade e de sua autonomia. Essa
avaliação padronizada é uma agressão à autonomia, favorece a
publicidade de empresas inescrepulosas, promove o ranqueamento e
a cultura empresarial, premiando a falsa qualidade e impondo o
pensamento único.”
Boicote o ENADE!
Entregue a prova em branco!