Um
relato sobre a ocupação da reitoria da Universidade
Federal do Paraná/UFPR, em 02/12/05
No
dia 02/12/05, na segunda metade da tarde, após inúmeras
tentativas frustradas do movimento estudantil da UFPR de sua participação
mais ampla nas sessões do COUN ocorridas nesta semana para
deliberações acerca do processo eleitoral para Reitoria,
bem como sobre as solicitações para instalação
de uma sindicância para apuração de denúncias
de irregularidades envolvendo uma das chapas que concorreram ao
pleito, especificamente a chapa Moreira e Márcia, um grupo
de estudantes representando diversos cursos da UFPR tomou a decisão
de ocupar as instalações da sala de reuniões
do COUN.A presente comunicação tem a intenção
de historiar mais detalhadamente estes fatos, do ponto de vista
de quem esteve efetivamente acompanhando de perto a manifestação
dos estudantes.
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A ocupação de algumas instalações da
Reitoria pelos estudantes foi a culminância de diversas tentativas
infrutíferas da comunidade discente mais ampla ser ouvida
no referido Conselho, em relação a duas reivindicações
básicas: 1) garantir à comissão eleitoral a
autonomia para proceder às investigações sobre
as denúncias recebidas, e, 2) não homologar os resultados
do processo eleitoral antes de serem concluídas as investigações,
através de comissão paritária, das denúncias
apresentadas.
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Além da impossibilidade de diálogo caracterizada pelo
não acolhimento, pela Reitoria em exercício, da solicitação
de um grupo maior de alunos, além dos representantes discentes,
participar das sessões ocorridas durante esta semana no COUN,
também a utilização do recurso coercitivo da
presença da Polícia Federal para coibir as tentativas
dos alunos de ter acesso às reuniões citadas também
contribuiu para o tensionamento no âmbito do movimento estudantil.
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Já na 4ª feira, 30/11/05, no período da manhã,
houve o acirramento da tensão institucional com a presença,
solicitada pela Reitoria em exercício, da Policial Federal
no espaço físico do Setor de Educação
onde estavam aglomerados alunos de diversos cursos constituindo
um grupo grande que teria a intenção de adentrar ao
espaço da Reitoria para participar da reunião do COUN,
utilizando-se do corredor que liga aquele Setor ao prédio
da Reitoria. Naquela ocasião houve agressão física
dos alunos por parte de pessoas auto-identificadas como funcionários
e alunos das UFPR, quando enquanto Coordenadora Interina do Curso
de Pedagogia tivemos que intervir solicitando a cessação
de tais agressões, vindo também a sermos agredida.
Apesar de nossas ponderações, e de alguns professores
que se somaram neste esforço, para que se considerasse ser
aquele um espaço de instituição educacional,
a Polícia Federal, que foi acionada pela gestão superior
da UFPR, atuou com truculência, ameaçando de prisão
inclusive aos professores citados, além de abordar alunos
e professores de forma violenta, com porte ostensivo de armamento
pesado, totalmente desnecessário para aquele contexto.
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Na 6ª feira, 02/12/05, antes da ocupação referida,
dadas as circunstâncias tensas de se caracterizavam por ocasião
do encerramento da sessão do COUN, por volta do meio da tarde,
quando os alunos que estavam concentrados no pátio da Reitoria
aguardando informes sobre as deliberações do COUN,
foram inteirados, por seus representantes discentes, de que suas
reivindicações, sobretudo em relação
à sindicância apontavam para um não acatamento,
houve uma concentração destes alunos diante das portas
da Reitoria, agravando o tensionamento, uma vez que estavam impedidos
de entrar, tanto pelo aparato de segurança da UFPR quanto
pela presença na área, do Polícia Federal com
viatura. Esta situação de tensão acabou gerando
a quebra de vidraças da Reitoria, bem como o ferimento de
alunos que foram encaminhados a hospitais.
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No transcurso daquela tarde, diante de um eminente confronto que
colocaria em risco um número imprevisível de alunos,
diversos professores procuraram circular no pátio da Reitora,
portando crachás que os identificavam institucionalmente,
para dar visibilidade de estavam buscando garantir a ausência
de truculência policial e garantir a integridade física
dos alunos. No transcorrer da tarde professores conselheiros ou
assessores da Reitoria acabaram acusando estes professores que circulavam
preocupados com a tensão existente, de terem incitado os
alunos a situação de enfrentamento, subestimando inclusive
a autonomia do movimento estudantil. Cabe ressaltar também,
que foram testemunhadas pelos alunos manifestações
de outros professores, que transitavam pelo local conclamando para
que se chamasse a polícia para conter os estudantes, quando
todo um esforço de mediação estava sendo realizado
no sentido de se estabelecer o diálogo e não a repressão.
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Do grupo de professores que acompanhou preocupado durante a tarde
de 02/12/05 a manifestação dos alunos, no momento
de maior tensão acima referido, onde alunos foram feridos,
foi formada uma Comissão constituída de três
professoras, Sônia, Coordenadora Interina do Curso de Pedagogia,
Andréa, Coordenadora do Curso de Ciências Sociais,
e Bete, Professora do Setor de Saúde, que apresentaram aos
alunos a proposta de mediar junto à Reitora em exercício
uma reunião com a mesma e alunos representantes dos cursos
que estavam concentrados naquele momento às portas da Reitoria,
cerca de vinte cursos. Os alunos aceitaram e a Comissão de
professoras obteve da Segurança da UFPR autorização
para entrar na Reitoria. Após algumas discussões desta
Comissão de professoras com a Reitora em exercício,
esta concordou em fazer naquele momento uma reunião com dez
alunos. As professoras retornaram ao saguão da Reitoria e
passaram a proposta aos alunos, que a aceitaram. Os alunos escolhidos
pelo movimento estudantil foram tendo acesso controlado pela Segurança,
ao interior da Reitoria, até formarem um grupo de dez, conforme
o acordado. Quando já se estava organizando a subida desses
alunos com a Comissão de Professoras para a sala da Reitora
em exercício, um delegado da Polícia Federal, forçou
a entrada obrigando os seguranças a abrirem a porta, gerando
indignação dos demais alunos que estavam do lado de
fora pela presença do aparato coercitivo, provocando a entrada
de mais uma quantidade aproximada de vinte e cinco alunos, que se
instalaram na sala de reuniões do COUN, que somados aos dez
que já estavam dentro do prédio, formaram um grupo
de cerca de trinta e cinco que permaneceram aguardando a Reitora
para a reunião. Naquele momento o tensionamento ficou agravado
porque a Polícia Federal bem como os Seguranças foram
orientados a conter estes alunos em sua intenção de
permanecer no prédio da Reitoria. Foi necessário grande
esforço de negociação entre a Comissão
de três Professoras, que teve o acréscimo da presença
do professor Pedro Bodê, neste trabalho de mediação,
para que a Policia Federal e os Seguranças consentissem que
os alunos ali permanecessem aguardando a Reitora em exercício.
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Como o número de dez alunos estipulado pela Reitora não
foi atendido, esta se recusou a conversar com os mesmos, inclusive
depois de várias tentativas de negociação para
que ela comparecesse, acarretando assim a ocupação
daquele recinto pelos alunos, por tempo indeterminado, como uma
estratégia política do movimento estudantil para obter
o atendimento de suas reivindicações.- Superando qualquer
avaliação limitada de análise moralista dos
processos de ocupação de espaços públicos,
é necessário reconhecer que tais processos historicamente
têm ocorrido como uma estratégia política de
resistência pela não concretização de
um diálogo conseqüente entre o poder constituído
e segmentos subalternizados em termos de poder político.
O
que se espera na presente divulgação é que
se instale o diálogo entre a gestão superior da UFPR
com o movimento estudantil em suas legítimas aspirações
de garantir um processo transparente de investigações
das denuncias apresentadas em relação a uma das chapas
que concorreu às ultimas eleições para a Reitoria
e que os resultados destas eleições só sejam
homologados pelo COUN após definitivamente concluídas
as investigações que se fazem necessárias.
Curitiba, 05/12/05.
Assina
a presente:
Profª Drª Sônia Guariza Miranda.
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