Desocupação da Reitoria – UERJ

 

 

            A desocupação da reitoria da UERJ pelos estudantes no dia 30 de setembro revela, na verdade, duas faces, conseqüências do caráter fragmentado da luta estudantil nesse momento; o que ficou claro foi não só a vitoriosa mobilização e consciência política dos estudantes, mas também o vergonhoso caminho traçado pela entidade representativa dos estudantes quando aparelhada a partidos eleitoreiros.

            A ocupação foi um marco de mobilização e revela não só a imensa insatisfação dos estudantes, mas sua disposição, interesse e força para lutar de forma combativa e organizada. O que se viu durante a ocupação foi um movimento estudantil que lutou por construir um espaço democrático, onde se realizavam Assembléias Gerais, comissões de organização e execução de tarefas, além de atividades culturais, espaços de discussão, entre outros. Foram 20 dias de muito trabalho e esforço por parte de todos, de um rico convívio e de um embate travado entre aqueles que sincera e honestamente acreditam na luta e exigiam o justo cumprimento das pautas de reivindicação e aqueles que lá estavam para constantemente aparelhar, desmobilizar, reduzir, limitar, enfraquecer a luta popular, direcionando a ocupação, instrumento legítimo de luta, para uma abominável farsa eleitoreira.

            Como verdadeiros agentes da reitoria, os representantes do DCE (pstu/psol) jogaram todas as expectativas nas negociações, confiaram e conciliaram com uma reitoria que só tripudiou em cima dos estudantes, colocando processos nominais, que chegou a cortar luz, telefone e internet e acordaram com uma minuta cujo único teor é garantir o que já estava garantido antes mesmo da ocupação e entrar em “consenso sobre a necessidade de aprofundar a discussão”, trazendo para os estudantes praticamente nenhum ganho concreto, apenas promessas da reitoria de futuras negociações, o que demonstra claramente o caráter completamente antidemocrático que vigora na Universidade.

            A verdade é que a desocupação não foi repentina, se deu em um processo e teve início com o não cancelamento do vestibular, razão primordial do movimento de ocupação, que surgiu como forma de se assegurar que este não ocorreria, a fim de pressionar o governo e denunciar as péssimas condições da Universidade. Jogando todo o tempo com o medo da repressão policial os oportunistas foram infligindo o terror e o pânico a todo instante, chegando a colocar de forma objetiva seu desejo de acabar com a ocupação, discurso que só mudou quando ficou clara a possibilidade de acordar com a reitoria a permanência dos estudantes no prédio concomitante com a realização das provas de vestibular.

            Nesse sentido, o esvaziamento da ocupação foi paulatino, a desmobilização, desmotivação e desinteresse dos estudantes cresceram à medida que estes sentiram que suas justas reivindicações estavam sendo usadas com finalidades eleitoreiras e muitos deixaram de acreditar na luta, recusando-se a ser massa de manobra, enquanto outros resistiam energicamente, seja protestando e exigindo dos membros do DCE que estes não utilizassem na ocupação seus adesivos de campanha, ou repudiando a presença de seus candidatos dentro da ocupação.

            A manipulação das Assembléias de acordo com os interesses eleitoreiros foi uma constante e ocorria através dos instrumentos mais sórdidos, revoltando os estudantes e desacreditando a luta. Dentre as várias formas utilizadas para isso, vimos uma mesa permanentemente controlada pelo DCE, (muitas distorções de propostas, controle das inscrições e das pautas, microfones que emudeciam dependo da fala ou do falante, assembléias tumultuadas, prolongadas pela madrugada a fim de provocar esvaziamento, convocação de militantes para contabilizar maior número de votos, decisões impostas que não foram consultadas em Assembléia, etc.), as comissões, criadas com a finalidade de conceber e executar tarefas aprovadas em Assembléia Geral também passaram a ser símbolo do burocratismo e seguiram não somente como instrumentos organizativos, mas como espaços deliberativos, destinados a controlar e desviar determinadas decisões da Assembléia, passando por cima desta ou relutando em consultá-la.

Um grupo de estudantes independentes (não comprometidos com a une, reitoria, com o governo, com as eleições...) se organizou desde o segundo dia da ocupação, repudiando o aparelhamento do DCE e reivindicando mais conseqüência para sua luta. Um dos desacordos do grupo era a importância que se colocava em determinadas pautas (como o bandejão, já tido como conquistado) em detrimento das demais (como a democratização da Universidade; conselho paritário e voto universal).

            Acusados de fragmentar o movimento estudantil, esses estudantes mantiveram suas reuniões entendendo que a cisão não partia deles, mas sim daqueles que se aparelhavam e que a unidade exige, acima de tudo, princípios.

A verdade é que, independente do resultado das decisões em Assembléias, sendo conquistadas ou não as intenções dos oportunistas, uma grande derrota a eles se seguia, pois pouco a pouco os estudantes foram percebendo não só seu caminho eleitoreiro, mas também a baixeza de seus métodos e princípios para alcançá-los. E, nesse aspecto, a decisão final tomada no dia 29 de setembro numa Assembléia considerada ilegítima pelos estudantes pelo seu caráter manipulador, foi a gota d’água que fez transbordar toda a revolta daqueles cuja causa da ocupação ia muito além de fazer campanha; sentindo-se traídos em sua luta, os estudantes independentes que ainda estavam na ocupação se reuniram por toda a madrugada definindo-se contrários a saída da ocupação, e entenderam que o documento assinado pela reitoria não só não representa nenhuma conquista concreta como também não garantia prazos ou se comprometia a verdadeiramente cumprir o que sugere.

Assim ficou claro que confundir o caminho da luta com o da negociação, confiando num Estado fascista que criminaliza os movimentos populares, que assassina e reprime o povo, e que não pensa duas vezes antes de investir dinheiro dos cofres públicos em “caveirão”, é assumir uma atitude conciliatória e é prática constante dos oportunistas, guiados por seus partidos eleitoreiros traidores do Movimento Estudantil.

Se o balanço positivo da ocupação foi ter revelado o caráter medíocre dos oportunistas, ter comprovado que a força, a mobilização, o descontentamento, a insatisfação, a organização e a capacidade de lutar são características do novo Movimento Estudantil, tomar nas mãos a direção da luta estudantil é tarefa de todo estudante minimamente preocupado com os rumos da educação; combater seu sucateamento e privatização só será possível através de um movimento audacioso e conseqüente que não meça esforços para barrar as medidas autoritárias promovidas por esse Estado fascista.

 

COMBATER O OPORTUNISMO!

 

POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA, GRATUITA E QUE SIRVA O POVO!

 

CRESCE! CRESCE POR TODO O BRASIL O NOVO MOVIMENTO POPULAR ESTUDANTIL!

 

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