Sempre
que retomamos nossa terra
Lutando
pela destruição do latifúndio, camponeses
do Norte de Minas trilham o caminho da verdadeira libertação
— Estou de parabéns — responde Orico, entusiasmado
quando a pergunta é sobre a produção. Orico,
47 anos, se alegra ao dizer que este ano vai colher feijão
catador e de arranque, arroz, mandioca, quiabo, fava, andu,
cana-de-açúcar, abóbora, batata, melancia,
banana, além de contar com a criação de
galinha e a produção de requeijão. Só
de roça — por roça se entende, no Norte
de Minas, a plantação de milho — Orico tem
três hectares prontos para a colheita. Seu Anísio,
com 50 anos, também comemora:
— Tem milho queimando o cabelo, milho de boneca e milho
croado; com a chuva que deu, tá ganho! — afirma.
O Seu Zé, com seus 67 anos, brada satisfeito:
— Estamos em cima de uma riqueza que eu nunca pensava
em adquirir.
Os
mineiros de Varzelândia, Orico e Anísio, o baiano
nascido em Feira de Santana, Seu Zé, e um dos coordenadores
regionais da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas, receberam
a reportagem de A Nova Democracia na casa do Orico, localizada
na antiga Fazenda Malhadinha/São Francisco (hoje uma
área chamada pelos camponeses de Nova Esperança).
Com quase três mil hectares de terras, o Nova Esperança
foi desapropriado pelos camponeses dirigidos pela Liga, em 2002,
e fica no município de Itacarambi, MG, na margem direita
do São Francisco. Dividido em cerca de 60 lotes, medidos
e cortados pelos próprios camponeses, para atender às
famílias que nele acamparam.
Para
si mesmos
Orico serviu o café e o requeijão. Diante dos
elogios, afirmou ter sido ele próprio quem fez o requeijão.
Depois, sorrindo, admitiu que ganhou de um amigo, um vizinho.
Interessado nas novas relações que se desenvolviam
entre os camponeses diretamente envolvidos nas desapropriações
de terras e os demais, pergunto pelos vizinhos. A primeira resposta
sempre é evasiva, curta, apenas positiva:
— É tudo bom!
Após alguma insistência, Orico vai aos poucos respondendo;
uma observação aqui, uma constatação
ali e, por fim, um pensamento. Os vizinhos do acampamento Nova
Esperança constituem um assentamento do Incra, o PA Milagres
(Projeto de Assentamento — denominação das
terras desapropriadas pelo Estado); a Vila Florentina, um pequeno
povoado; o latifúndio Cantagalo, composto de 22 mil hectares
e ultrapassando limites de quatro municípios, pertencente
ao vice-gerente do Estado brasileiro, José Alencar; a
Brasnica, empreendimento que envolve a exportação
de bananas para o Japão; e o Projeto Jaíba, o
maior projeto de irrigação da América Latina.
— Nós somos bem apoiados — resume Anísio.
Afinal, a partir do momento em que se organizaram na Liga, ocuparam
a terra, resistiram às investidas policiais, derrotaram
em sucessivas audiências na justiça um antigo gerente
que reclamava as terras da Malhadinha/São Francisco.
Cortaram-na em lotes e ali se estabeleceram os camponeses, que
nunca mais precisaram trabalhar para outros. Bem diferente do
que ocorre com muitos outros que, assentados pelo Estado (Incra)
no PA Milagres, estão afundados em dívidas e sem
créditos.
— No coletivo é tudo unido, tudo obedecido —
explica Orico, referindo-se ao princípio do centralismo
democrático que se encontra no texto de organização
da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas (LCP-NM).
Ele
diz existir um respeito muito grande entre os companheiros,
que dividem as responsabilidades de zelar pela área (limpar
estradas, manter as casas que ficaram do antigo latifúndio
e servem ao coletivo), trabalhar em mutirão nas roças,
tomar conta dos barracos dos companheiros quando estes têm
de ir à cidade, dentre outras tarefas. Orico elogia esta
organização de base, os grupos de dez famílias
organizados pela Liga, que acabam também sendo os grupos
(uma espécie de brigadas) de produção;
grupos de ajuda mútua.
Apesar de o plantio individual ainda predominar, Seu Zé
explica que, dentre as 60 famílias que dividiram a terra
conquistada, as 22 que participam mais efetivamente da organização
coletiva plantaram este ano em torno de 80 hectares de roça
(milho) na própria área, e não dependeram
da lavoura nas "ilhas", uma prática tradicional
entre os camponeses que não possuem terra na região,
e que plantam em pequenas franjas do solo quase sempre inundadas
pelo São Francisco.
— Esse ano, quem dependeu das ilhas ficou "lorado":
o rio lambeu tudo — lembrou Anísio. Na Fazenda
Cantagalo, o gerente do latifúndio ameaça de demissão
todos os seus empregados que ousarem, em suas horas de folga,
visitar os "sem-terra", referindo-se ao camponeses
da Liga, numa tentativa de manter os empregados afastados do
sonho pela liberdade, conquistada pelos trabalhadores do Nova
Esperança.
— Você se lembra daquele companheiro que passou
por nós, aquele na carroça, que cumprimentou sorrindo?
— me perguntou o coordenador da Liga. Respondi que sim,
sabendo depois que aquele camponês trabalhava na Cantagalo,
para o José Alencar, e não aceitou as ameaças,
exigiu as contas e foi com a mulher e os filhos para o Nova
Esperança, onde tem hoje um lote cercado e uma roça
produtiva.
Orico
e Anísio ouvem o coordenador da Liga, se entreolham e
entram na conversa expressando o orgulho que têm de, no
meio de tanta "gente grande", possuir aquele pedaço
de terra conquistado por eles, só com o apoio da sua
Liga; e de ser aquele pedaço de terra um símbolo
de progresso, liberdade e de um novo tipo de democracia.
Na
sala do Orico, uma velha estante de aço, caprichosamente
limpa, mostra o pouco que ele ainda precisa comprar na cidade:
sal, óleo, café, biscoito, sabão em pó,
e também algumas garrafas de mel de [abelha] "europa".
E, se certa emoção já envolvia a entrevista,
a história da tomada da terra, contada pelo Seu Zé,
revela um pouco mais da profunda transformação
que o movimento camponês dirigido pela Liga opera nos
sertões do Norte de Minas.
Em 21 de dezembro de 1967...
— Não, Seu Zé, estou perguntando quando
foi que o senhor chegou aqui na Malhadinha — insisti,
ignorante, quando o Seu Zé respondeu data, mês
e ano.
— Meu pai saiu de Feira de Santana, se não me engano
na década de 1950. Comprou um terreno em Carinhanha,
pequena cidade do sul da Bahia que faz divisa com Minas Gerais,
na altura em que o rio Carinhanha desemboca pelo lado esquerdo
no São Francisco. Fomos com ele, todos os dez filhos.
Não deu certo, muito ruim de chuva, uma "escassidão"
de água danada.
Prossegue Seu Zé:
— Atravessei o rio, vim pra cá. Fui empregado na
Fazenda Malhadinha. Derrubei muita madeira, serviço bruto.
Tirei madeira para todas as construções daqui
de dentro. Aqui, nunca teve nada. Um 'capinzinho' só.
No mais era lenha e carvão. Já estava abandonada
fazia um tempo, quando o Antônio Lopes — um oportunista
e, então, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais
de Itacarambi — trouxe o pessoal. Eu era empregado, dei
apoio. O Antônio Lopes traiu o pessoal quando o Incra
falou que não podia comprar porque a Fazenda estava em
área de APA (Área de Preservação
Ambiental).
Mais
de 50% das áreas rurais de Matias Cardoso e Itacarambi
foram decretadas de interesse ambiental pelo governo do Estado
para atender exigênci as dos investidores do Banco Mundial
(capital japonês) e continuar financiando o Projeto Jaíba.
— Antônio Lopes então tirou todo mundo, falou
que depois voltava, foi se assentar com os que lhe pagavam os
lotes no Milagres, e aí acabou tudo. O gerente me mandou
embora. Mandou procurar meus direitos. Eu procurei. Nunca tive
nada assinado. Não deu em nada. Isso foi há uns
sete anos, em 1998. Eu fiquei sabendo da Liga tem uns quatro
anos, conhecia o companheiro da Liga, procurei ele. Ele deu
apoio, explicou, leu a cartilha, eu peguei o caderno para listar
os companheiros e caí no mundo. 'Avancemo' e 'tomamo'
de conta! — conclui Seu Zé alteando a voz. Orico
também tinha estado no Milagres com Antônio Lopes.
Recusou-se a comprar a vaga, foi sabotado até sair. Como
Anísio, perambulou muito tempo tirando madeira e plantando
nas "ilhas". Os dois vieram de Varzelândia,
MG, hoje dividida em dois municípios. A região
de onde Orico veio hoje é chamada de Verdelândia,
onde fica Cachoeirinha, cenário de um massacre em que,
em 1967, mais de cinco posseiros foram assassinados e 62 crianças
morreram de sarampo, enquanto seus pais eram perseguidos por
policiais e pistoleiros.
O
pai de Orico não estava entre os cinco companheiros oficialmente
assassinados. Mas foi preso, levado para Montes Claros e torturado
em sessões de afogamento.
— Foi muita água no nariz — conta Orico —
Nunca mais se recuperou, vindo a falecer alguns meses depois.
E
Orico seguiu no mundo: Cachoeirinha, Jaíba, Itacarambi,
dentre outros.
Foi
enganado por um oportunista, mas seguiu lutando e encontrou
o Anísio, o Seu Zé e, por fim, encontrou a Liga.
Hoje tem terra com água — velho sonho de seu falecido
pai e de todo sertanejo do Norte de Minas. A emissão
de um documento lhe passando a posse da terra até que
seria bom. Porém, mesmo sem ele a posse é respeitada.
Até
o IEF (Instituto Estadual de Florestas) deixou de dar batida
nas lagoas, já que estão protegidas pelas posses
dos camponeses. E o mais alto representante do Estado na região,
o vice-presidente da República, seu vizinho, mesmo com
todo o dinheiro que dispõe, lhe têm medo; medo
de deixar que os homens e mulheres que edificam a sua riqueza
sejam contagiados pelo sorriso simples e livre de Orico e seus
companheiros, agora organizados. Falta muito, mas já
começou!
Novas
condições de existência
No final da década de 60, o governo do estado de Minas
criou a Fundação Ruralminas sem esconder que buscava
uma saída para o problema da propriedade da terra, principalmente
no norte do estado, entre os vales dos rios São Francisco
e Jequitinhonha. Nessa região, as terras historicamente
eram reconhecidas como devolutas — pertencentes à
coroa portuguesa e nunca legalmente transferidas a possíveis
proprietários; irregularmente repassadas a terceiros
por eventuais exploradores que não tinham título
de propriedade. Eram terras que, pela lei da República
— inclusive pela Lei de Terras de 1850 — deveriam
retornar ao controle do Estado. A Ruralminas receberia as terras
do estado e, por seu regime jurídico, as repassaria para
proprietários que, documentados, estariam então
aptos a participarem do processo de desenvolvimento capitalista
no campo. O imperialismo, o latifúndio e a burguesia
manejavam para impedir que as lutas camponesas se elevassem
ao nível de uma revolução agrária
e democrática. O objetivo de titular terras para o latifúndio
era encoberto com propaganda da "titulação
de terras para todos" e a criação de "projetos
de colonização". O próprio Projeto
Jaíba de Irrigação (300 mil hectares, sendo
100 mil irrigados) foi desenvolvido a partir de uma destas colônias
da Ruralminas.
Para
muitos pequenos sitiantes a intervenção do Estado
aparecia como uma saída contra a violência desencadeada
pelo latifúndio local, que cobrava seu apoio ao regime
de 1964 promovendo matanças e se apropriando de tudo
que pudesse cercar.
Nas
pequenas vilas e povoados semeados, desde Montes Claros até
a divisa com a Bahia — nas encostas da Serra da Jaíba,
às margens dos rios São Francisco, Verde Grande
e Gurutuba (antiga região de quilombos) — até
hoje a população exibe pequenas fichas que dariam
direito a um título definitivo de propriedade que, até
hoje, passados quase 40 anos, jamais lhes foi concedido.
Entretanto,
os latifundiários locais e grandes grupos industriais,
nacionais e multinacionais, receberam os documentos e financiamentos
a fundo perdido, via Finor (Fundo de Investimento do Nordeste,
gerenciado pela Sudene). O Grupo Ommeto, Tracbel, Agrivale,
etc, para citar alguns, receberam milhões em financiamentos.
Um
exemplo, e dos pequenos, encontra-se num documento que nos foi
repassado pelo advogado da Liga dos Camponeses Pobres do Norte
de Minas. A Fazenda Yasmine, da Monvep — uma concessionária
de veículos da Volkswagen, em Montes Claros — com
uma propriedade avaliada em 76 milhões de cruzeiros,
recebeu, à época, um financiamento de quase o
dobro de seu valor: 128 milhões. O projeto que justificou
este empréstimo público previa, quando de sua
última etapa, o emprego direto de 32 trabalhadores, a
produção diária de 5.000 litros de leite,
mais de 4.000 cabeças de gado... Quando desapropriada
pelos camponeses, em 2002, não havia na propriedade senão
algumas dezenas de bois de um vizinho, uma vez que o caseiro
alugava o resto de pasto para receber um salário mínimo,
pois nem isso vinha conseguindo nos últimos anos.
Nem
capitalismo
Ao invés de prevalecerem os métodos capitalistas
— tão decantados em prosa e verso pelos oportunistas
de hoje, que fazem a apologia do "agronegócio"
para justificar sua aliança carnal com o latifúndio
na gerência do capitalismo burocrático —
prevaleceram (na aliança entre o imperialismo, o latifúndio
e a burguesia burocrática e compradora de então)
os métodos do latifúndio.
Ao
invés de empresas rurais, trabalhadores com carteira
assinada e devidamente remunerados etc, etc, o que se viu foi
a destruição das matas, transformadas em carvão,
e o trabalho semi-escravo, em substituição ao
semi-feudal. O antigo sistema que prevalecia na região
era caracterizado pela "permissão" dos antigos
coronéis para que os camponeses plantassem em suas (dos
latifundiários) terras, desde que abandonassem ou lhe
vendessem, a preço irrisório, toda a produção.
Já
dando sinais de esgotamento e fracasso, uma vez que prevaleceu
o poder e as relações de produção
do latifúndio, inicia-se a fase dos grandes projetos
de irrigação, financiados pela política
desenvolvimentista do imperialismo na região —
através do Banco Mundial, com a participação
dos governos estadual e federal, estes através da Ruralminas
e Codevasf/Banco do Nordeste/Sudene. Seriam criadas, então,
ilhas de capitalismo, com água em abundância, energia,
estradas... O Estado controlaria tudo para garantir que os recursos
não fossem desviados, e seriam "assentados"
pequenos e médios camponeses. Quem dera...
No
Projeto Jaíba de Irrigação, o maior da
América Latina, mais de 400 milhões de dólares
foram investidos na construção de canais, estações
de bombeamento de água, instalação de energia
elétrica, depósitos e galpões, máquinas,
implementos, equipamentos e insumos para irrigação,
etc. Mais um fracasso. O Japan Bank, principal investidor de
recursos via Banco Mundial, fez com que a compra dos equipamentos,
tubos e máquinas fosse feita das empresas de capital
majoritariamente japonês. Como os recursos eram liberados
mediante a apresentação de resultados, como o
"assentamento" de famílias camponesas, centenas
destas foram listadas como tal sem nunca sequer terem acesso
a um lote para morar, quanto mais para plantar.
Atualmente
apenas a primeira etapa do projeto está concluída,
sendo que a etapa II deve começar a operar completamente
em breve, segundo anuncia a gerência FMI-PT. Dos 1.400
camponeses assentados "irrigantes", com direito a
plantar em lotes de cinco hectares — se todos os 100 mil
hectares irrigados fossem distribuídos para pequenos
camponeses, a capacidade seria para 20.000 famílias —
perto de 500 abandonaram seus lotes, outros tantos estão
com água e luz cortadas, enquanto os restantes sobrevivem
administrando dívidas ou resignados a uma produção
sempre desvalorizada em relação à obtida
pelos latifundiários japoneses (como a Brasnica, exportadora
de bananas e frutas) ou empresários que receberam lotes
no Projeto (em torno de 200 na primeira etapa, com lotes de
20 a 50 hectares, outro tanto na etapa II, sem limite de tamanho).
Dos projetados 100 mil hectares irrigados, se concluída
a etapa II do Projeto Jaíba, a área que será
utilizada ficará em torno de 19 mil, ou seja não
alcança os 20%. Dos dez motores utilizados para bombear
a água, comprados da Toshiba, atualmente apenas um está
em funcionamento. Das terras utilizadas, os pequenos camponeses
respondem por menos de 40%. Praticamente todos os grandes latifundiários
da região, como José Alencar, tem o seu quinhão
no Projeto. A grande maioria das áreas vizinhas, nos
municípios de Jaíba, Matias Cardoso, Itacarambi
e até mesmo Januária, foram decretadas Áreas
de Proteção Ambiental ou Parques Ecológicos.
Enquanto
isso, mais de 5.000 famílias estão acampadas em
barracos de lona, cadastradas no Incra, a grande maioria desde
2002 e, em alguns casos, já há sete anos. É
intensa a perseguição dos órgãos
de proteção ambiental aos pequenos camponeses.
Cresce
e fortalece
Talvez seja por isso que se multipliquem tão rapidamente
os Oricos, Zés e Anísios. Talvez seja por isso
também que a Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas,
em pouco mais de seis anos de existência, atue hoje em
meia centena de áreas, acampamentos, agrupamentos de
pequenos e médios camponeses, posseiros, assentamentos,
bairros pobres, em aproximadamente 20 municípios da região.
Todos enfrentam uma violenta reação do aparato
estatal — que inclusive treinou na região tropa
especial para atuar em conflitos agrários —, pistoleiros
e grupos paramilitares, organizados pelo latifúndio através
das sociedades rurais.
Certamente,
bem mais importante que a quantidade de acampamentos ou assentamentos
— critério utilizado pelo oportunismo e classes
dominantes para reivindicar autoridade hegemônica ou reduzir
o caráter do movimento camponês às reivindicações
econômicas — é a qualidade deste movimento
que encontramos no sertão das Gerais.
Profundas
transformações ideológicas se verificam
a partir da desapropriação e imediata posse da
terra pelos camponeses pobres, que vão impulsionando
novas transformações no terreno econômico
e político. O exemplo da Malhadinha/São Francisco,
ou melhor, Nova Esperança, em Itacarambi, não
é o único em que o caminho independente é
trilhado pelas massas camponesas do norte de Minas. É
o caminho da conquista e defesa da posse da terra, do desenvolvimento
das forças produtivas a partir da organização
de grupos de base que passam a fazer parte do cotidiano das
massas camponesas. Esses grupos não representam mais
o associativismo forçado e imposto de fora para dentro,
que tanto indigna o camponês, mas o resultado da ação
consciente, vinda da necessidade de construção
do novo poder.
O
exemplo da Agrivale
A Agrivale é uma propriedade cujo tamanho original chegava
a 20 mil hectares quando foi adquirida pelo Incra para aquilo
que chamam de reforma agrária, na década de 80.
Antes disso, já estava abandonada e tinha sido ocupada
por camponeses. Está localizada praticamente dentro do
perímetro do Projeto Jaíba, na estrada que liga
o Projeto a Matias Cardoso. No entanto, diversas negociatas
entre os órgãos do governo (Incra, Codevasf, etc.)
a deixaram abandonada. Atualmente, excluindo sua parte que virou
reserva ecológica, restam em torno de quatro mil hectares.
As
estruturas abandonadas (casas, depósitos, poços
artesianos) dão bem a dimensão de quanto dinheiro
público foi desperdiçado no auge da farra da Sudene/FINOR,
na década de 70. Conquistada em 2001 pelos camponeses
organizados na Liga, a Agrivale até hoje permanece como
sendo sua propriedade.
Um
dos coordenadores da área, José Ferreira, de 45
anos, trabalhava na construção dos canais que
atenderão a Etapa II do Projeto Jaíba. Sempre
conversava com um colega de serviço, então ativista
da Liga e hoje também um coordenador. Nesse período
foi reavivando um sonho antigo: ser dono de um pedaço
de terra. José Ferreira disse que até aquele momento
nunca lhe havia passado pela cabeça entrar na luta pela
terra. Mas se interessou, porque aquele movimento levado a cabo
por camponeses e que lhe parecia distante, difícil, um
tanto perigoso, se aproximou a partir do instante em que conversou
com o companheiro da Liga.
A
Liga, os homens e mulheres que ocupavam e desapropriavam terras
eram como ele mesmo, tinham os mesmos problemas, os mesmos sonhos,
os mesmos inimigos. Quando seu sogro lhe avisou que em 2001
seria a vez da Agrivale, não pensou duas vezes.
José
Ferreira, ao entrar na terra, tinha apenas um casal de patos,
presente de seu sogro. Hoje tem 50, cada um valendo, em média,
R$ 20. No primeiro ano ele plantou 20 quilos de milho, passou
a criar porcos e galinhas. Colheu cerca de 30 sacos "na
palha". Comercializou uma parte e alimentou a criação
com a outra. No ano seguinte, plantou 90 quilos, tarefa facilitada
porque o grupo de ajuda mútua do qual já era integrante
contratou um trator. Colheu 30 sacos debulhados. Já no
terceiro ano na terra, plantou 120 quilos.
Coletivamente,
com a participação ativa dos companheiros e companheiras
da área, cada grupo de cinco famílias plantou
em torno de cinco hectares. Tudo com trator. E o tempo ganho
com a coletivização do trabalho permitiu ao José
Ferreira plantar um hectare de amendoim, outro de feijão
catador, além de abóbora, melancia e fava.
— Os que tiveram melhor empenho nos grupos foram os que
mais plantaram também individualmente — conta José.
A
compreensão de José Ferreira sobre o grupo coletivo
lembra as palavras de Orico:
— O grupo é bom. Os camponeses trabalham muito
mais animados. O responsável fala e todos os companheiros
respeitam.
E
se na Malhadinha/São Francisco cabe uma comparação
com o assentamento oficial do Estado, no "Assentamento
Popular" da Agrivale a comparação é
com os camponeses irrigantes do Projeto Jaíba, que vivem
no cativeiro, não podem tomar nenhuma iniciativa, gastam
muito com água e energia. E na Agrivale não existem
pragas, como no Projeto.
— Depois que você veio para a Agrivale já
precisou trabalhar fora? — perguntei.
— Não, nunca mais! — respondeu, orgulhoso,
José Ferreira, sem alterar o semblante sereno e firme.
Ainda
fez questão de contar que hoje, na Agrivale, estão
organizados seis grupos de famílias, que reúnem
as 62 famílias que já cortaram seus lotes de 50
hectares cada um. Estão na terra vários companheiros
que eram irrigantes no Projeto Jaíba, que decidiram sair
do cativeiro e hoje estão felizes na Agrivale.
Em uma parte das terras da Agrivale, estão os companheiros
que viviam acampados no Parque do Cajueiro e na Fazenda Santa
Idália, duas áreas vizinhas, e que foram despejados
pela polícia depois de resistir a um intenso cerco em
2003. Persistiram na luta e, hoje, em uma parte da Agrivale,
plantam coletivamente a roça. Já é o terceiro
ano em que a luta pelo aumento da produção coletiva
se dá na Agrivale, onde atualmente 60 hectares são
plantados no coletivo, de um total de área plantada de
120 hectares. Todos estão satisfeitos por seguir o caminho
independente, sem as amarras do Estado burguês-latifundiário.
O
caminho das massas
O coordenador de produção da Liga, que havia chegado
no final da entrevista, fala das casas de alvenaria e adobe
em Miravânia, MG — na Fazenda JJJ, tomada em 2000
e dividida pelos camponeses em lotes que abrigavam, em 2001,
40 famílias, e hoje é chamada de Barra dos Quilombos
— e conta das roças de mandioca que produzirão
até 30 sacos de farinha da melhor qualidade, com o preço
chegando a R$ 120, o saco. Também explica que em Miravânia
nunca entrou um centavo do governo. No Acampamento Vanessa (homenagem
a uma menina de seis anos assassinada na resistência de
Corumbiara, em Rondônia), em Manga, 54 famílias
dividem os lotes cortados pelos próprios camponeses e
o grande problema encontrado por eles é como armazenar
a produção de milho e arroz. No acampamento Renascer,
ainda em Manga, são 150 famílias e as roças,
plantadas coletivamente, mesmo que cada um tenha sua parcela,
somam 140 hectares de milho, 80 hectares de arroz, 40 hectares
de mandioca, abóbora, feijão catador e melancia,
sem contar as 300 cabeças de gado. Em Juvenília,
MG, os camponeses — que lutam pela terra e contra o poder
imperial do latifundiário baiano Nilo Coelho —
decidiram tomar para si e criar coletivamente as galinhas de
um programa governamental de segurança alimentar.
Quando
o coordenador de produção se preparava para falar
de outras regiões, chegou o coordenador de finanças
da Liga, com os novos carnês de contribuição
individual. Decorado com fotos do trabalho coletivo e de uma
atividade realizada durante o I Curso de Formação
Política da Coordenação da LCP-NM, que
ocorreu em fevereiro deste ano, o carnê estipula o pagamento
mínimo de R$ 2 por mês, recolhidos pelos coordenadores
de finanças de cada área. Ele explicou que esta
contribuição é discutida em assembléia
e que muitos companheiros acham pouco, incrementando a contribuição
com doações de alimentos para a realização
dos encontros, reuniões e seminários.
Não
restam dúvidas, já começou. Sob fogo cerrado
do Estado, e toda sorte de dificuldades e privações,
brilha vermelho, e ilumina o verdadeiro caminho da libertação,
o sol do Norte de Minas.
Retirado
de " A Nova Democracia" - www.anovademocracia.com.br