Governo
desvia verba da Previdência, diz estudo
Segundo associação de auditores, em 2004
R$ 17,6 bi saíram da seguridade social para engordar
superávit primário sem amparo legal
Fonte: Folha de São Paulo
Sem amparo legal, o governo subtraiu R$ 17,63 bilhões
da arrecadação da seguridade social no ano passado
para engordar o superávit primário, afirma estudo
elaborado pela Anfip (Associação Nacional dos
Auditores Fiscais da Previdência Social). Segundo a entidade,
os recursos desviados contribuíram com 36% da meta de
ajuste fiscal da União -excluindo estatais federais.
Pelas
contas da entidade, o sistema de seguridade social -previdência,
assistência social e saúde- registrou um saldo
positivo de R$ 42,53 bilhões em 2004. O excedente, de
acordo com a Anfip, foi alocado no pagamento de gastos fiscais
ou contabilizado diretamente no cálculo do superávit
primário (receita menos despesas, exceto os juros da
dívida).
As
contribuições sociais, estabelece a Constituição,
são receitas vinculadas criadas para financiar a seguridade
social. Governos recentes e o atual, no entanto, fazem uso de
um mecanismo (emenda ao texto constitucional) que garante a
desvinculação de 20% da receita de impostos e
contribuições: a DRU (Desvinculação
de Receitas da União).
Com
base em informações extraídas do Siafi
(Sistema Integrado de Administração Financeira),
do fluxo de caixa do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)
e do Tesouro Nacional, os fiscais da Previdência concluíram,
porém, que o governo federal ultrapassou o limite legal
da DRU.
A
Anfip calcula que a desvinculação das contribuições
sociais -entre elas Cofins e CPMF- autorizaria o governo a gastar
fora da seguridade social R$ 24,9 bilhões no ano passado.
Os R$ 17,63 bilhões restantes deveriam ser aplicados
no sistema. Não foi o que aconteceu, alega a entidade.
Os
auditores da Previdência destacam que essa não
foi uma peculiaridade de 2004. Entre 2000 e 2004, foram utilizados
R$ 165 bilhões da seguridade social para contribuir com
o superávit primário. Desse montante, R$ 76,84
bilhões teriam excedido o limite permitido para desvinculação
das contribuições.
"Tendo
em vista o total comprometimento do Orçamento fiscal
com as necessidades de financiamento da dívida pública,
os superávits são alcançados através
do orçamento da seguridade social", diz a Anfip.
A Folha procurou os ministérios da Fazenda, Planejamento
e Previdência para comentar o estudo da entidade, mas
não obteve resposta em nenhum dos casos.
Previdência superavitária
O levantamento elaborado pelos fiscais ainda reforça
uma antiga tese da Anfip e de defensores da seguridade social:
o regime geral de Previdência não é deficitário,
uma vez que o sistema do qual faz parte goza de superávits
crescentes. Em 2004, o saldo positivo da seguridade cresceu
34% em relação ao ano anterior.
"Ao
isolar o RGPS [Regime Geral de Previdência Social] do
sistema de seguridade social e distorcer a composição
de seu orçamento, as fontes oficiais omitem para a sociedade
que os repasses constitucionais que deveriam ser alocados em
saúde, previdência e assistência social são,
na execução, realocados para cobertura de gastos
fiscais e obtenção de superávit primário",
afirma o estudo da Anfip.
Pelo
raciocínio contábil predominante, o resultado
do INSS é tido como a diferença entre a arrecadação
das contribuições previdenciárias e o pagamento
de benefícios. No ano passado, esse pagamento superou
a receita previdenciária em R$ 32 bilhões -o que
é chamado de déficit da Previdência.
Mas,
como a Constituição destina a receita das contribuições
sociais para a seguridade, seria correto, segundo a Anfip, imaginar
que tal arrecadação seria suficiente não
só para anular o déficit da Previdência
como ainda restariam recursos.
Isso
porque, mesmo depois de pagar todos os benefícios previdenciários
e saldar todas as despesas previstas com saúde e assistência,
houve um saldo positivo na seguridade social, no ano passado,
de R$ 42,53 bilhões. Para a Anfip, esse adicional de
arrecadação das contribuições deveria
ser usado na expansão de ações da seguridade
social.